Grandes construtoras paulistas desembarcam em Curitiba para disputar palmo a palmo os novos empreendimentos residenciais. "Estão todas aqui", atesta Luiz Nardelli, presidente da Redeimóveis, associação que reúne 12 das principais imobiliárias da cidade.
O aquecimento do setor de construção em todo o país e a abertura de capital das empresas, com entrada de investimento estrangeiro em algumas construtoras de São Paulo, deram o sinal verde para que elas saíssem em busca de novos mercados. "A oferta de crédito está chegando a um público novo", diz Antônio Ferreira, diretor da Gafisa, que acredita que a demanda reprimida seja um pouco maior em Curitiba que em outras capitais por conta da "atuação de algumas incorporadoras". Traduzindo: a cidade teria sofrido mais que outras com golpes de empresas que quebraram, como a Encol.
A mais antiga a desbravar essas terras, ao que consta, foi a Rossi Residencial, que lançou o primeiro empreendimento no segundo semestre de 2005 e hoje já chegou a seis e a um VGV (Valor Global de Venda) de R$ 200 milhões. O resultado de R$ 50 milhões em vendas em uma tradicional feira do setor, em agosto do ano passado, foi considerado excelente. Foi 50% maior que o do ano anterior.
Trabalhando sempre com um parceiro local - no caso de Curitiba, com a Thá Incorporadora -, a Rossi tem planos de terminar 2009 com algo entre R$ 500 e R$ 600 milhões a mais em VGV, com lançamentos em Curitiba e Região Metropolitana. "As construtoras paulistas já ocupam um espaço importante", confirma Hugo Peretti Neto, presidente da Ademi-PR, associação que reúne os dirigentes das empresas do setor.
Em sua opinião, as paulistas que mais ganham espaço são as que fizeram parceria com construtoras locais, uma vez que "Curitiba é muito bairrista". Algumas construtoras, dizem especialistas, chegaram com ímpeto demasiado, marketing agressivo, muito diferente do que o consumidor local está acostumado.
"O número de construções está bem acima da média histórica", confirma o presidente da Câmara Setorial de Imobiliárias da Associação Comercial do Paraná (ACP), Jean Michel Galiano. Ele calcula que as vendas estejam entre 30% e 40% maiores, embora os dados sejam ainda iniciais, ressalva.
As construtoras regionais não têm o mesmo poder de fogo e se ainda não sofreram com a chegada das paulistas, \\"no mínimo, saíram de uma posição confortável\\", avalia Galiano. "Faz parte do jogo", concorda Luiz Nardelli, que não acredita que o grande número de unidades em construção possa saturar o mercado em pouco tempo.
As parcerias têm mesmo dado certo e estão presentes na maioria dos negócios. "O parceiro traduz o mercado pra gente; em Porto Alegre, por exemplo, a gente pode até colocar a churrasqueira no meio da sala", brinca Paulo Weber, diretor de novos negócios da Rossi. A mesma estratégia é usada pela Cyrela, transformada em Goldsztein Cyrela no Rio Grande do Sul, que, por sua vez, opera com a paranaense Doria Construções Civis.
Apesar de estarem apenas no segundo ano de atuação no mercado curitibano, os vendedores da Gafisa já captaram algumas singularidades locais. "As vendas aqui são mais cadenciadas", revela Ferreira. O comprador de Curitiba é bem racional; olha muito, estuda o negócio e compra menos na planta do que em outras cidades, explica. O pico das vendas costuma acontecer quase no final da construção. "Isso não é comum em outros locais em que atuamos", conta.
A diretora de desenvolvimento da Fit Residencial, Daniela Ferrari, também percebe o comprador curitibano muito cauteloso e disciplinado. O traço cultural deve realmente ser forte, porque a Fit, um braço da Gafisa dedicado exclusivamente ao segmento econômico (5 a 20 salários mínimos), fez seu primeiro lançamento na capital paranaense há apenas três meses.
Publicado por: Valor em: 30/06/2008
Miriam Karam |